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TRIBUTO AOS HERÓIS (Paulo Sant'ana)
Não sei se cabe ao governo ou à sociedade gaúcha, homenagear os três heróis da barragem de Erechim
onde afundou o ônibus escolar em que morreram 17 crianças.
Talvez fosse imprescindível tributar a eles um preito inesquecível de agradecimento.
É que os meninos Lucas Vezzaro, com 14 anos, o adolescente Mateus Capra, com 17 anos, e o operador
de máquinas Valdecir Antonio dos Santos, com 36 anos, escreveram durante a tragédia um dos mais
belos capítulos de solidariedade humana e heroísmo que o nosso Estado já testemunhou em todos os tempos.
O operador Valdecir, tão pronto o ônibus se precipitou para a barragem, atirou-se nas águas e saiu a salvar,
com a ajuda de outras pessoas, cinco crianças que estavam no ônibus ou se debatiam fora dele sem saber nadar.
O adolescente Mateus estava no ônibus entre os outros alunos. Conseguiu safar-se por uma janela, nadou até a margem, mas lá percebeu que as outras crianças lutavam para sair do veículo submerso.
Tirou a roupa depressa, desvencilhou-se do aparelho dentário e mergulhou novamente na água, indo até o ônibus e resgatando de dentro e fora dele, quatro colegas que não sabiam nadar.
E o exemplo do garoto Lucas, de apenas 14 anos, é o que cala mais profundo em nossas consciências.
Porque antes de perder a vida, salvou duas meninas, uma de cada vez...elas tiveram calma e foram trazidas para a margem. Atirou-se novamente para salvar uma terceira menina, por ironia do destino a que ele amava, e pretendia no seu sonho infantil casar-se com ela quando se tornasse adulto.
Não voltou o bravo menino Lucas, morreu, talvez extenuado pelos dois outros salvamentos que praticara, talvez abraçado à menina Adriane, que ele amava, na clássica situação da afogada que esta sendo salva, desesperada, impedindo os movimentos de seu salvador.
Morreram os dois na água gelada da barragem.
Que força estranha e mágica - e sublime - arremessou esses dois meninos para a extrema coragem e renúncia de seu exemplar gesto?
Onde foram buscar essa bravura e tamanha dignidade?
Que sopro divino no coração do menino Lucas elevou-o primeiro ao heroísmo e logo em seguida ao martírio?
Um menino de apenas 14 anos, com a integridade de caráter e emocional de um homem maduro, formado e íntegro! Que estupenda noção de dever!
Que apurado senso de responsabilidade solidária!
Que amor ao próximo!
Que dádiva de coração! Que exemplo!
Quantas crianças, quantos meninos e meninas deste Brasil que depende de seus filhos têm o mesmo valor, a mesma fibra desses dois meninos e aguardam apenas a oportunidade para demonstrá-lo e elevar seu País ao plano ideal de seu destino?
Só agora, com o exemplo magistral do operador Valdecir, dos garotos Lucas e Mateus, gaúchos que honram seu pago e a sua Pátria, é que fui compreender a legitimidade do verso principal do Hino Rio-Grandense que me parecia antes jactancioso:
"Sirvam nossas façanhas de modelo a toda terra".
Colunista Paulo Sant'ana
Jornal Zero Hora, Porto Alegre, Domingo, 26/09/2004
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- 2:32 PM
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